A incidência de TOC na síndrome de Down

zan

Filho de imigrantes egípcios, Zan Mustacchi nasceu em Israel, onde viveu sua infância em meio a uma situação política delicada. Quando se mudou para o Brasil talvez não sonhasse em se tornar uma das principais referências quando o assunto é síndrome de Down. Médico geneticista e pediatra, ele fala com carinho especial das crianças que nascem com essa alteração cromossômica. Defende o máximo de autonomia possível e desfaz, com ênfase, alguns mitos a respeito da síndrome.

Entre eles, a falsa afirmação de que as pessoas com Down não conseguem aprender. “Pois é justamente o contrário. Elas aprendem muito bem, mas têm grandes dificuldades em esquecer o que aprendem. Costumo dizer que aprendem e não desaprendem. Isso pode se tornar um problema, pois se aprenderem errado terão dificuldade em esquecer. Essa questão explica por que há grande incidência de TOC (transtorno obsessivo compulsivo)”, explica, ressaltando que elas assimilam e criam uma rotina em cima desse aprendizado, transformando a ação num processo repetitivo.

Entre outros títulos e atividades, Mustacchi é doutor e mestre pela Universidade de São Paulo; vice-presidente do Departamento Científico de Genética da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP); responsável pelo Ambulatório de Genética do Hospital Infantil Darcy Vargas (HI DV); diretor clínico do Centro de Estudos e Pesquisas Clínicas de São Paulo (Cepec-SP); membro da Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down (FBASD); do Departamento Científico da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e do Down Syndrome Medical Interest Group (DSMIG), além de presidente do Instituto Ibero-Americano de Pesquisas e Diretrizes de Atenção à Síndrome de Down (IPDSD).

Por que surgiu seu interesse em se especializar no tema síndrome de Down?
Zan Mustacchi:
Primeiramente, devo esclarecer que não há ninguém na minha família que tenha síndrome de Down. Meu interesse surgiu quando fazia residência pediátrica, há 38 anos. Certo dia eu pedi uma vaga na UTI para uma criança que tinha a síndrome. A resposta que recebi foi que não havia essa possibilidade, porque se tratava de uma criança mongoloide. Cuidei dentro das condições que tinha à disposição e, à noite, ela morreu. Depois disso, fiquei sabendo que, no momento em que ela precisava da vaga, havia dois leitos vazios na UTI . Ou seja, essa criança sequer teve a oportunidade e o direito de ser colocada na Unidade de Terapia Intensiva. Talvez não sobrevivesse, mas ela tinha o direito de ter a chance. Por isso, tenho convicção de que a situação das crianças com síndrome de Down só melhorou porque os pais passaram a exigir dos médicos um tratamento igual ou melhor do que o que existe para seus outros filhos.

O que caracteriza a síndrome de Down?
Mustacchi:
A síndrome de Down se caracteriza por um comprometimento vinculado ao excesso de material cromossômico no cromossomo 21, que, em vez de dois cromossomos, passa a contar com três. Isso faz com que a pessoa manifeste três sinais clínicos que o diferenciam da população chamada comum: fenótipo que lembra muito os olhos oblíquos dos orientais (por isso, os pacientes eram chamados no passado de mongoloides, de forma pejorativa); hipotonia, ou seja, musculatura e ligamentos menos eficazes; comprometimento intelectual ao longo da vida, denominação que preferimos adotar no lugar de deficiência intelectual, como sugere a Organização Mundial da Saúde.

Houve o caso de um Down que sempre ia ao mesmo mercado. Invariavelmente, o caixa não tinha troco e dava em balas. Certo dia, ele juntou umas 50 balas, foi ao mercado e comprou um refrigerante. Na hora de pagar, quis dar as balas ao invés de dinheiro. Evidentemente, o funcionário não aceitou, mas ele não abriu mão

Do ponto de vista psicológico, que tipo de problemas surge nas crianças com essas características?
Mustacchi:
São vários problemas, que podem se manifestar de inúmeras formas. Em termos físicos, temos instabilidades de quadril, nos joelhos, nas vértebras cervicais, problemas oftalmológicos prematuros. Em relação aos aspectos psicológicos, os Downs têm suas peculiaridades. Algumas pessoas acreditam erradamente que eles não conseguem aprender. Pois é justamente o contrário. Eles aprendem muito bem, mas têm grandes dificuldades em esquecer o que aprendem. Costumo dizer que aprendem e não desaprendem. Isso pode se tornar um problema, pois se aprenderem errado terão dificuldade em esquecer. Essa questão explica por que há incidência do TOC (transtorno obsessivo compulsivo), pois eles apendem e não desaprendem. Se ensinarem que ele deve sentar num determinado lugar em casa, ninguém mais poderá sentar ali, pois o lugar passa a ser dele. Se ensinarem que ele deve calçar os sapatos e as meias de um jeito, sempre fará igual. Outro aspecto relacionado à cognição diz respeito à genética. Todos nós recebemos de nossos pais pares cromossômicos, incluindo quem tem Down. Metade, cedido pelo pai, e metade, pela mãe. Se eu pedir para qualquer pessoa, independentemente de nacionalidade, hipoteticamente, para pintar as metades, a maioria diria que usaria o azul para os cromossomos do pai e o rosa para os da mãe, isso em função de informações que temos arquivadas no cérebro. O Down tem essa dificuldade (habilidade cognitiva) de dedução a partir de informações já existentes.

Pode citar um exemplo de como isso funciona na prática?
Mustacchi:
Houve o caso de um Down que sempre ia ao mesmo mercado. Invariavelmente, o caixa não tinha troco e dava em balas. Certo dia, ele junto umas 50 balas, foi ao mercado e comprou um refrigerante. Na hora de pagar, quis dar as balas ao invés de dinheiro. Evidentemente, o funcionário não aceitou, mas ele não abriu mão. Houve uma grande confusão e tiveram de chamar a polícia. Conheço outro exemplo. Um Down morador de um flat pagava R$ 1 mil todo mês de aluguel. Numa determinada situação, ele pagou com um dia de atraso e foi cobrado um acréscimo de R$ 100,00. Ele disse que não daria, porque no mês anterior ele havia pago um dia adiantado e não ganhou desconto por isso. Outra confusão e a polícia foi chamada novamente. Normalmente, nessas situações, como eles têm imunidade jurídica, acabam conseguindo o que querem. Eles não aceitam fatos assim, ao contrário de nós, que “engolimos” esse tipo de coisa.

Muitas vezes, os pais de crianças que nascem com problemas genéticos, mais especificamente síndrome de Down, são tomados pela sensação de falha, de fracasso, de culpa. O que mostra sua experiência sobre a reação dos pais diante da notícia de que o filho tem a síndrome de Down?
Mustacchi:
Invariavelmente, quando os pais recebem a notícia de que seu filho tem síndrome de Down entram numa espécie de falência emocional. Esse sentimento é justificado e deve ser suportado, compreendido e apoiado para que lentamente melhore. Isso ocorre em função do estigma que ainda persegue as pessoas com Down, somado à expectativa que os pais sempre têm de que seus filhos sejam melhores do que eles. São paradigmas que precisam ser rompidos para a aceitação. Todos esperamos ter um filho o mais perfeito possível, o mais inteligente e mais bonito, e desejamos a ele tudo aquilo que somos e muito mais. Quando nasce uma criança com qualquer disfunção, sobre a qual tenhamos estabelecido um conceito anterior de que é uma situação lesiva, o sentimento inicial é de perda, de luto. Perdemos o envolvimento com o futuro do nosso filho, e perder o futuro é um estado muito delicado.

Quando nasce uma criança com qualquer disfunção, sobre a qual tenhamos estabelecido um conceito anterior de que é uma situação lesiva, o sentimento inicial é de perda, de luto. Perdemos o envolvimento com o futuro do nosso filho, e perder o futuro é um estado muito delicado

Como evitar que essa sensação perdure nos pais? É necessário um acompanhamento psicológico permanente?
Mustacchi:
Frequentemente, é necessário o acompanhamento de um profissional da saúde. Entretanto, se torna fundamental que seja um psicólogo que esteja habilitado para essas questões. Caso contrário, a condução do processo pode ocasionar erros gravíssimos, que podem gerar uma desorganização da estrutura familiar, o que acaba piorando o problema psicológico.

Emocionalmente, as crianças com Down são mais amorosas e despertam um intenso sentimento de carinho para com elas? São menos agressivas, como comumente se observa em algumas publicações? Existe algum estudo a respeito do assunto?
Mustacchi:
Não existe nenhuma base científica que mostre que crianças com síndrome de Down são mais amorosas ou agressivas. Avaliações que apresentam esses argumentos são frutos de “pesquisas de corredores”, feitas por familiares ou associações que se dedicam ao tema. Sem dúvida, as crianças com Down são resultado do ambiente em que vivem. O que existe é a observação dos pais que enfatizam algumas alterações comportamentais nas crianças com Down, que não são nem mais carinhosas, nem mais agressivas, são como qualquer outra criança. Acontece que a atenção paterna ou materna é mais dirigida para aquele indivíduo a respeito do qual haviam estabelecido conceitos prévios sobre a falta de capacidade para fazer determinadas coisas e, consequentemente, passam a observar comportamentos e reações que não notaram nos outros filhos.

Não existe base científica que mostre que crianças com Down são mais amorosas ou agressivas. Avaliações que apresentam esses argumentos são frutos de “pesquisas de corredores”, feitas por familiares ou associações que se dedicam ao tema. Sem dúvida, as crianças com Down são resultado do ambiente em que vivem

Nos últimos 20 anos, o aumento da expectativa de vida das crianças com Down foi de 30 anos, o que é um número altíssimo num período curto. A que se deve essa mudança?
Mustacchi:
É fato que nos últimos 10 anos foi registrado um aumento significativo da longevidade das pessoas, no geral. Contudo, nos últimos 20 anos, pessoas sem a síndrome tiveram um ganho de sobrevida de 10 anos, isto é, a expectativa de vida passou de 70 para 80 anos. Nesse mesmo período, a sobrevida na população com síndrome de Down foi de 25, 30 anos para 60 e até 70 anos, o que representa que essas pessoas ganharam 30 anos de sobrevida com qualidade. Isso se deve, como já disse anteriormente, ao suporte e às exigências familiares e à atenção médica, nutricional e preventiva no sentido de um cuidado mais adequado.

Procede a informação que o Down necessita de uma rotina para conviver melhor socialmente? Isso tem relação com essa questão da aprendizagem?
Mustacchi:
A rotina, sem dúvida, favorece a vida da pessoa com síndrome de Down e tem relação direta com o TOC. O difícil é equilibrar essa rotina com a conduta social. Quando criança, ao aprender algo ensinado pelos pais, o garoto ouve que já é um mocinho. No entanto, quando pede alguma coisa inadequada para a idade, ele ouve que ainda é criança. O problema é que ele não admite que não é mocinho, pois foi o que escutou anteriormente. Então, ele fica bravo e pode até mesmo quebrar objetos e ter reações desse tipo, pois não sabe se expressar.

Embora não seja propriamente sua especialidade, em termos de processo de atendimento psicológico, existe uma abordagem que seja mais adequada para o Down ou cada caso deve ser avaliado de forma diferenciada?
Mustacchi:
A princípio, cada caso é um caso e deve ser avaliado dentro de suas peculiaridades. No entanto, geralmente, a abordagem mais indicada é a comportamentalista, que como o próprio nome define é uma linha da Psicologia comportamental. Trata-se de um modelo de terapia que reforça as atitudes adequadas e ignora as que não são ideais. Deve ser aplicada por um profissional habilitado, no caso um psicólogo, pois o psicanalista não vai querer adotar essa linha de atuação. Existem outras abordagens, mas essa é a que funciona melhor com o Down. Sempre ressaltando que cada caso deve ser observado de uma maneira diferenciada.

Boa parte das pessoas com Down tem sobrepeso ou estão acima do peso. Isso se deve ao fato deles não terem a sensação de saciedade ao se alimentar? Essa característica é física ou psicológica?
Mustacchi:
A primeira parte da afirmação está correta, pois a maioria das pessoas com Down tem sobrepeso. No entanto, o fato não está relacionado com a sensação de saciedade. Isso decorre de um distúrbio familiar. Explico: a sociedade impõe que nossa qualidade de vida evoque prazeres. Quais são eles? Leitura, cinema, teatro, esporte, sexo, comida, lazer social. E qual desses prazeres está ao alcance do Down com facilidade? A comida. Essa relação acaba criando um modelo facilitador para os pais conseguirem o que querem do filho, como se fosse uma barganha. Ele recebe o alimento e faz o que os pais pedem. Há outra explicação física que mostra que, por ter o intestino hipotônico e mais longo, o Down absorve mais o alimento. Além disso, por haver restrições nas atividades físicas, ele gasta menos e absorve mais.

Lucas Vasques é jornalista e escreveu esta publicação. Fonte

Beijos  Simone Santiago Marques

 



26 Comentários para “A incidência de TOC na síndrome de Down”

  1. Benedito C. Corrêa dos Santos

    Quero apenas agradecer pela matéria muito clara e de suma importância para nós que temos filho com Down, acho até que seria muito importante que tivéssemos mais abordagem do assunto em redes de TV pois alcançaria mais rápido e mais pessoas com tão pouco conhecimento sobre a Síndrome de Down.

    Sou de Paraty RJ, meu filho tem três anos e se chama Vitor Kenji, esta fazendo eco terapia, fono e tem acompanhamento de uma psicóloga gratuitamente por uma ONG aqui de minha cidade chamada AME que atende cerca de 60 crianças com necessidades especiais.

    Meu muito obrigado,

    Benedito C. Corrêa dos Santos.

    Responder
      • Benedito C. Corrêa dos Santos

        Olá Simone, boa noite!

        Peço desculpas pela demora em responde-la.
        Gostaria de saber se seria possível você enviar algumas matéria com esta principalmente das crianças com Síndrome de Down para que eu possa imprimir e deixar em um mural lá na Ame ( ongue ) onde meu filho faz acompanhamento, seria muito interessante para as mães e pais com crianças especiais.

        Agradeço pela sua atenção e agradeço mais uma vez pelo trabalho de todos vocês .

        Atenciosamente,

        Benedito C. Corrêa dos Santos.

        Responder
  2. patricia mendes fernandes

    Tenho um filho de 6meses e Dow queria saber mais sobre assunto adoro ler e entender mais….

    Responder
    • Patricia, toda semana posto pelo menos dois posts, de uma olhada geral no site têm muitas coisas interessantes. O que você tiver dúvida e eu puder ajudar estou à disposição. Beijos Simone

      Responder
  3. Gérson Alves Carapiá

    Excelente matéria, tenho um Neto com a Dow acompanho desde seu nascimento com geneticista, psicóloga, fono, ortopedista e outros, o interessa é que eu conheço vários mais o meu é magro todo e de excelente altura come bem e de tudo, só tem um detalhe não é chegado a escola e dia que não quer tomar banho é um sacrifício.

    Responder
  4. Solange Lopes Martins

    Obrigada pela matéria de fundamental importancia para nós pais com síndrome de Down. Tenho um filho com 12 anos que está muito teimoso e começando a ficar respondao e também não gosta de fazer os deveres de casa. Está me dando muito trabalho para estudar em casa.

    Responder
  5. Cynthia Osawa

    Olá tenho uma linda anjinha de quatro anos , estamos no Japão , e adorei a matéria , façam mais , informações são sempre bem vindas !!!!! Seria muito bom se o dr. Zan pudesse fazer uma live! Desde já muito obrigada ! Emanuelle eh nome da minha lindinha !!!!

    Responder
    • Cynthia, que legal o japão deve ser muito legal !! Que bom que gostou posto todas quartas, sextas e alguns domingos. O Dr Zan é realmente fantástico, participei de uma palestra dele e ele e referência em síndrome de Down. Beijos Simone

      Responder
  6. Alda da Silva Penna

    Eu tenho uma Ana Laura ela tem displasia no quadril e não consigo com façam a cirurgia de correção. Tem alguma orientação que possa me ajudar. Ela já tem sete anos. Down linha e maravilhosa

    Responder
  7. Bom dia,

    Muito boa a materia.. parabéns!!

    Um assunto que deveria alcançar um espaço maior na publicidade..principalmente para esclarecer muitas questões , dúvidas sobre a SD.

    Abraços

    Responder
  8. Olá Simone. Sou de Montes Claros-MG e tenho uma Princesa de 4 anos com síndrome de Down – A Maria Alice.
    Quero te parabenizar e agradecer pela excelrnte materia que me tirou muitas dúvidas.
    Se tiver a oportunidade, gostaria de deixar meu email cadastrado para receber seus posts relacionados a sindrome de Down.
    Abraços.
    Nice

    Responder
    • Oi Nice, obrigada pelo carinho. Posto todas as quartas, sextas e alguns domingos. No Facebook temos uma página do Rotina Down também. Beijos Simone

      Responder
  9. Odete madalena

    Achei muito interessante tudo que li. Meu filho é down tem 8 anos ensino a ele tudo que posso e não conto com ajuda de profissionais na aria ,a não ser médicos pediatras ,ou colégio Muito amor e dedicação . Acho não tem ensinamento melhor do que aceitar com normalidade .

    Responder
  10. Maria Etelvina Santos

    Gostei muito do seu comentário Dr, gostaria de deixar o e-mail do meu marido para poder receber mas informações sobre o assunto.
    tenho um filho daw de quatro anos o Matheus.

    Responder
    • Maria, sempre postamos na quarta e sexta no site. Também adoro as notícias do Dr Zan, quando tiver com certeza irei fazer posts. um abraço Simone

      Responder
  11. Tenho um bebê de nove meses com down,ele é muito esperto quero cuidat direito e ensinar tudo corretamente. Obrigado pela ótima matéria.

    Responder

Deixe um comentário