Plasticidade cerebral e poda neural : Compreenda a conexão com o TEA

neuronio

Como funciona o cérebro de uma pessoa no Transtorno do Espectro do Autismo (TEA)? Essa é uma pergunta que vem sendo alvo de inúmeras pesquisas em todo o mundo. Os cientistas têm procurado compreender os mecanismos que possam estar ligados à essa “desordem neurológica” que caracteriza a condição de autismo, gerando desafios sociais, de comunicação (verbal ou não) e comportamentais.

No primeiro ano de vida de um ser humano o cérebro forma os circuitos neurais. Essa “rede”, que se assemelha a uma teia de aranha, é repleta de ligações entre os neurônios – as chamadas sinapses -, sendo a responsável por conduzir a informação que transita entre o cérebro, sistema nervoso central e organismo. Nesse período do desenvolvimento infantil, a criança possui o dobro de sinapses que um adulto. Isso ocorre porque o cérebro lança circuitos para inúmeras atividades, já que não conhece o estilo de vida que levaremos. Como uma espécie de reserva extra.

Com o tempo, na medida em que o indivíduo recebe estímulos de aprendizagem e desenvolvimento, o cérebro passa a reconhecer quais conexões têm sido utilizadas com maior frequência e reforça esses circuitos na forma de memória. Os recursos que não são utilizados vão sendo desativados. A essa exclusão, dá-se o nome de “poda neural”, um processo que ocorre dentro do cérebro, que resulta na redução do número total de neurônios e sinapses. Esse “corte” acontece inúmeras vezes ao longo da vida, sendo mais intenso próximo aos 3 anos de idade e na adolescência, o que é benéfico para o bom funcionamento do cérebro.

Ao passo que algumas conexões vão sendo desligadas, outros neurônios vão surgindo. Isso acontece devido a plasticidade cerebral (ou neuroplasticidade), que pode ser definida como a capacidade adaptativa que o cérebro possui de se regenerar ao longo da vida, estabelecendo novas sinapses. A neuroplasticidade se trata disso. A ideia de que o cérebro está em constante mutação, adequando-se conforme a aprendizagem, o comportamento, meio ambiente e aos processos neurais. Algumas décadas atrás, as pessoas acreditavam que, uma vez que o cérebro foi formado, era isso. Nada mais acontecia. Hoje já é sabido que esse é um processo contínuo.

É como se fosse um arbusto ou uma árvore frutífera, por exemplo. Para que cresçam fortes é preciso que sejam podados de tempos em tempos, regenerando folhas, galhos e frutos.

Mas, o que isso tem a ver com o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA)? Acredita-se que nesse processo de regeneração e poda pode haver alguma falha, responsável pelo surgimento de distúrbios de aprendizagem e neuronais, como o autismo. Essa dita “conectividade anormal” pode fornecer uma justificativa para a dificuldade em assimilar novas habilidades, como falar e andar, por exemplo.

Em 2014 um importante estudo realizado por neurocientistas no Centro Médico da Universidade de Columbia – que foi publicado na revista científica Neuron, trouxe à luz uma nova perspectiva quanto ao funcionamento do cérebro de um autista. A pesquisa demonstrou que as crianças com TEA possuíam um excesso de sinapses – as conexões entre as células cerebrais, o que segundo o artigo ocorreria devido a uma ineficiência no processo de poda neural durante o processo de desenvolvimento cerebral. Devido a esse fato poderiam ocorrer os déficits neurológicos comuns no autismo.

Com base nesse achado, os cientistas relataram que pode ser possível futuramente haver um tratamento que restaure e normalize a atividade da poda sináptica, podendo controlar ou reduzir os comportamentos típicos de quem está no espectro.

Novos horizontes

No final de 2017 mais um estudo liderado por brasileiros demonstrou um importante avanço na busca por expandir conhecimento no universo do TEA. Dessa vez os pesquisadores foram além da análise da atividade dos neurônios. Eles verificaram que outro importante grupo de células do cérebro chamadas “astrócitos” possui papel fundamental no funcionamento do sistema neuronal, sendo peça-chave para compreender o mecanismo do espectro e, assim, contribuir com o aperfeiçoamento do tratamento para o distúrbio, de maneira personalizada.

“Estas células são responsáveis por sustentar e nutrir os neurônios e estão envolvidos em diversas atividades cerebrais. Além disso, eles regulam a concentração de diversas substâncias do sistema neuronal, tendo assim potencial para interferir nas funções cerebrais de quem tem o espectro autista”, esclarece a autora principal, a neurocientista Fabiele Russo, que também é a idealizadora do portal NeuroConecta. Com isso percebeu-se que não deve se focar apenas em testar drogas direcionadas para tratar neurônios, mas também para os astrócitos. Fonte

Beijos  Simone Santiago Marques

 



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