Quem é a criança com síndrome de Down ? – Dr Zan Mustacchi Parte 1

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Dando continuidade nos posts sobre o Guia do Bebê, hoje vou começar o capítulo sobre quem é a criança com síndrome de Down.  vamos lá !!

A criança com síndrome de Down é simplesmente uma criança como qualquer outra. Por ser assim, é também uma pessoa, com particularidades e características.Todos dizem que existem pessoas que são normais, então se subentende que existam outras que sejam anormais  e novamente se expressa um preconceito. Perguntamos: o que é ser e quem é normal? O importante de agora em diante é adotarmos um novo conceito: somos  pessoas comuns . Ser comum não nos parece tão agradável quanto sermos normais.

Curiosamente há quem acredite que ser comum tem um contexto pejorativo. Até onde vai nosso preconceito?

Ao longo de 30 anos, nos quais tive a oportunidade de avaliar e examinar mais de 6 mil indivíduos com síndrome de Down, de fio a pavio, aprendi que as pessoas que têm síndrome de Down são pessoas comuns, que têm na sua informação genética um pedaço pequeno do menor dos cromossomos em excesso, isto é, simplesmente é um material a mais. Esse material a mais tem sua expressão traduzida em três situações clínicas que as diferenciam das outras pessoas:

  1. Uma pessoa comum que tenha característica facial que lembre um oriental
  2. Pequenas e quase imperceptíveis diferenças caracterizadas como atraso do desenvolvimento motor relacionadas à redução da sua força muscular
  3. Apresentação de dificuldades na sua capacitação em virtude de alterações neurológicas.

A Característica facial  mais marcante nas pessoas com síndrome de Down é o desenho dos olhos, que costumam ser um pouco afastados  entre si em virtude de uma dobra  de pele chamada epicanto, a qual sai  da base do nariz, escondendo o ponto por onde as lágrimas saem, que é o canto interno dos olhos.O desenho as pálpebras faz com que os olhos sejam um pouco puxados para cima, dando-lhes a característica amendoada. Muitas vezes o epicanto simula o que chamamos de falso estrabismo ( tem-se a impressão que o indivíduo é vesgo). É relativamente frequente um pequeno edema (inchaço), tanto nas pálpebras inferiores quanto superiores, que têm uma expressão clínica variada, isto é mais ou menos evidente entre diferentes crianças.

O restante do rosto tem uma silhueta  mais arredondada com maior proeminência das bochechas. A boca apresenta frequentemente um desenho que lembra um arco de cupido, cujo lábio superior têm inclinação para baixo simulando o arco, e o lábio inferior, horizontalizado em linha reta, fosse a corda do arco.

Habitualmente  o queixo é pequeno . O pescoço é um pouco mais curto, porque as vértebras cervicais, que são os ossos do pescoço , são mais achatadas em relação a população comum.

Quanto aos músculos definidos como hipotônicos ( enfraquecidos, com redução da força muscular ) é preciso esclarecer que temos dois tipos de músculos.

O primeiro grupo é chamado de músculos estriados e esqueléticos ( vistos ao microscópio apresentam estrias, que são linhas ). Estes são do nosso próprio domínio e por isso são definidos como músculos voluntários; como o próprio nome diz, por serem esqueléticos, estão ligados ao esqueleto.

O Outro grupo é o dos músculos lisos  ( vistos ao microscópio, são lisos sem nenhuma linha), que estão em todo o nosso corpo ( vísceras e órgãos internos), não ligados aos ossos, e seu  movimento não depende da nossa vontade, portanto são chamados de músculos involuntários ou autônomos. Seus movimentos são automáticos e um dos melhores exemplos para entendê-los é o que tecnicamente chamamos de peristaltismo intestinal, ou melhor, quando temos fome, sentimos e percebemos um movimento dentro da barriga , que é incontrolável , portanto não o dominamos por nossa vontade.

Como para toda regra há uma exceção, o único músculo que é estriado, não esquelético e involuntário é o músculo do coração ( músculo cardíaco).

Quando a hipotonia é discutida deve subentender-se  que a também necessariamente uma frouxidão ligamentar. Os músculos esqueléticos unem-se aos ossos por estruturas que funcionam como se fossem ” borrachas “, chamadas de ligamentos, e são esses ligamentos que unem os ossos entre si. Imagine  que essas ” borrachas” estão sendo esticadas e soltas de forma constante. O ato de esticar chamamos de extensão articular, e quando esticamos ao máximo realizamos uma hiperextensão articular. A união dos músculos com os ligamentos é um dos principais mecanismos  da limitação da extensão das articulações.

Se considerarmos que os ligamentos das pessoas com síndrome de Down são chamados de frouxos, o que significa que seu estiramento máximo terá uma resultante de movimento articular ampliado – e essa situação é a principal responsável pelo que chamamos de instabilidade articulares  – as subluxações e raras luxações serão mais evidenciadas nesse grupo de pessoas.

É muito frequente ouvirmos que infecções ou comprometimentos respiratórios são situações repetitivas em pessoas com síndrome de Down, e é necessário entender por quê. Ocorre que ” as portas de entradas ” ( por onde entram os micróbios que geram infecção ) da maioria dos processos infecciosos são as narinas e a boca; portanto, esses dois lugares têm mecanismos próprios de defesa, formando barreiras para reduzir a entrada dos micróbios no corpo.

Pessoas com síndrome de Down dificilmente terão broncoconstrição, em virtude da hipotonia muscular, quem tem Down não têm asma. Eles podem apresentar um quadro de inflamação das células dos brônquios as quais ficam inchadas e ” simulam” um quadro de asma.  O tratamento dessa situação nas pessoas com síndrome de Down é baseado em anti-inflamatórios , e nunca em broncodilatadores ( esses costumam ter efeitos de aumento de batimentos da frequência cardíaca, o que pode complicar problemas cardíacos)

Quanto ao refluxo, a hipotonia faz com que o músculo seja incapaz  de se contrair adequadamente por falta de tônus, o conteúdo do estômago volta para o esôfago, portanto, sobe contra o fluxo. Esse condição pode passar a ser severa se atingir a altura das vias respiratórias, acarretando inclusive pequenas aspirações  e eventuais pneumonias, além de otites e sinusites, e também um processo inflamatório do esôfago chamada esofagite. Se o refluxo chega à boca, pode inclusive acarretar cáries.

No intestino, o movimento é mais lento, devido à hipotonia, as manifestações de obstipação intestinal ( intestino preso) serão mais evidentes.

Na vesícula , se for hipotônica, ocorre em 7% a 9 % das pessoas com síndrome de Down, poderá ocorrer um endurecimento chamado de cristalização da bile, dentro da vesícula ( pedra na vesícula).

Continuamos no próximo post, sei que essa leitura fica um pouco chata, mas é muito importante sabermos todos esses detalhes, para que nossos filhos tenham uma melhor qualidade de vida.

Beijos  Simone Santiago Marques

 



20 Comentários para “Quem é a criança com síndrome de Down ? – Dr Zan Mustacchi Parte 1”

  1. Fábio Silva

    Adorei esse tipo informação , deixam mais claras as situações e estados em que nossas crianças e filhos estão ou podem passar , minha filha já teve uma consulta com o Dr Zan , onde iniciou um tratamento para combater infecções das vias aéreas . Obrigado e parabéns pelo conteúdo da matéria.

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    • Fábio, obrigada. O guia do Bebê escrito pelo Dr Zan é fantástico, vou fazer várias postagens sobre elas. Tenho certeza que vamos aprender juntos. Obrigada Simone

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  2. Veronica Avelino de Queiroz

    Gostaria de receber mais informações de pessoas com síndrome de down, pois tenho uma filha de 8 anos com SD.

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  3. Fernanda Maria Cruzes Matias

    Bom dia!
    Sou Fernanda, mãe de Clara. Estou gostando muito de seus posts, estão ajudando a sanar muitas dúvidas minhas e acreditos que de todas as mamães tbm. Gostaria que assim que possível vc, comentasse um pouco, sobre a questão do exame de ressonância com sedação. Minha filha vai ter que passar por isso. Há algum risco neste procedimento? Qual o melhor anestésico para as crianças com SDown? Por favor esclareça essa minha dúvida, pois estou muito apreensiva em relação a este exame. Obrigada!

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    • Fernanda, não achei nada na internet que seja perigosa essa sedação. Também não aparece qual melhor anestésico. Se você está com dúvidas converse com o médico que solicitou o exame, exponha seus medos. Com certeza ele estará sempre preocupada com o melhor para sua princesa. Boa sorte Simone

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  4. Excelente matéria!! Minha filha tem Down e pra mim e de grande proveito saber detalhes do funcionamento do corpo dela

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    • Silmara, que bom que você gostou do post. Enquanto eu estava digitando a matéria fiquei com medo de ficar cansativa. Esse Guia do Bebê do Dr Zan é fantástico, vou fazer vários posts sobre ele. Tenho certeza que será muito bom para todos nós. Beijos Simone

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  5. Cleusa oliveira faleiro

    Tenho uma linda princesa, minha metinha com 6 anos vou passar ela no meuropediatra, mais tenho muito medo de fazer ressonancia por causa do sedativo, quero saber se não tem perigo.

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    • Cleusa, tentei pesquisar na internet e não achei nada que diga que é perigoso, se o médico solicitou, com certeza ele está fazendo o melhor. Beijos Simone

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  6. Sabrina Dutra

    Olá Simone, estou lendo os seus posts e são excelentes. Tive um bebe recentemente e foi diagnosticado com SD, porém ele é muito ativo, muito esperto, sem hipotonia (somente no pescoço) e ainda nasceu prematuro e sem patologias. Gostaria de algo sobre estes casos, será que o impacto cerebral pode ser menor? Como consigo este guia do DR Zan Mustachi? O acesso para consulta com ele é fácil, sou de outro estado. Obrigada!

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  7. Olá estou lendo seus post gostei muito, tenho uma neta SD , ela está com 5 anos muito ativa,vai consultar pela primeira vez com Dr.Zam , creio q vai dar TD certo . , Palmas To.

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